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A sua sensibilidade se parece com a de Jesus?

 É fácil reagirmos e pensarmos com lucidez quando o sucesso bate à nossa porta, mas é difícil conservarmos a serenidade quando as perdas e as dores da existência nos invadem. Jesus é o mestre da sensibilidade. Muitos revelam irritabilidade, intolerância e medo nessas situações. Se quisermos observar a inteligência e maturidade de alguém, não devemos analisá-la nas primaveras de sua vida, mas no momento em que atravessa os invernos de sua existência.

 Muitas pessoas, incluindo intelectuais, comportam-se com elegância quando o mundo os aplaude, mas perturbam-se e reagem impulsivamente quando os fracassos e os sofrimentos cruzam as avenidas de suas vidas. Não conseguem superar suas dificuldades nem  mesmo extrair lições de suas intempéries. Houve um homem que não se abalava quando contrariado. Jesus não se perturbava quando seus seguidores não correspondiam às suas expectativas.

Jesus o mestre da sensibilidade

 Diferente de muitos pais e educadores, ele usava cada erro e dificuldade dos seus íntimos não para acusá-los e diminuí-los, mas para que revisassem suas próprias histórias. O mestre da escola da vida estava menos preocupado em corrigir os comportamentos exteriores e mais preocupado em estimulá-los a pensar e a expandir a compreensão dos horizontes da vida.

 Era amigo íntimo da paciência. Sabia criar uma atmosfera agradável e tranquila, mesmo quando o ambiente à sua volta era turbulento. Por isso dizia: “Aprendei de mim, pois sou manso e humilde…”3.

 Sua motivação era sólida. Tudo ao seu redor conspirava contra ele, mas absolutamente nada abatia seu ânimo. Ainda não havia passado pelo caos da cruz. Sua confiabilidade era tão sólida, que de antemão proclamava a vitória sobre uma guerra que ainda não tinha travado e que, o que é pior, enfrentaria sozinho e sem armas. Por isso, apesar de ser ele quem devesse ser confortado pelos seus discípulos, ainda conseguia reunir forças para animá-los momentos antes de sua partida, dizendo: “Tende bom ânimo, eu venci o mundo”4.

 Muitos psiquiatras e psicólogos possuem lucidez e coerência quando discorrem sobre os conflitos dos seus pacientes, mas quando tratam dos seus próprios conflitos, perdas e fracassos, não poucos têm sua estrutura emocional abalada e fecham as janelas da sua inteligência.

Nos terrenos sinuosos da existência é que a lucidez e a maturidade emocional são testadas.

Ao longo da minha experiência como profissional de saúde mental e como pesquisador da psicologia e educação, estou convencido de que não existem gigantes no território da emoção. Podemos liderar o mundo, mas temos enormes dificuldades em administrar nossos pensamentos nos focos de tensão.

Muitas vezes temos comportamentos descabidos, desnecessários e ilógicos diante de determinadas frustrações.

 O mestre da escola da vida sabia das limitações humanas, sabia que nos é difícil gerenciar nossas reações nas situações estressantes. Tinha consciência de que facilmente erramos e de que facilmente punimos a nós mesmos ou aos outros. Entretanto, queria de todo modo aliviar o sentimento de culpa que esmagava a emoção e criar um clima tranquilo e solidário entre os seus discípulos. Por isso, certo dia, ensinou-os a se interiorizarem e orarem, dizendo: “Perdoai as nossas ofensas assim como temos perdoado aqueles que nos têm ofendido”5.

Quem vive sob o peso da culpa fere continuamente a si mesmo, torna- se seu próprio carrasco e, de outro lado, quem é radical e excessivamente crítico dos outros torna-se um “carrasco social”.

 Na escola da vida não há graduação.

Quem nela se “diploma” faz perecer sua criatividade, na medida em que não mais possui a capacidade de ficar assombrado com os mistérios que a norteiam. Tudo se torna comum para ele, nada havendo que o anime e o instigue.

Nessa escola, o melhor aluno não é aquele que tem consciência do quanto sabe, mas do quanto não sabe. Não é aquele que proclama a sua perfeição, mas o que reconhece suas limitações.

Não é aquele que proclama a sua força, mas o que educa a sua sensibilidade. Todos temos momentos de hesitação e insegurança.

Não há quem não sinta o medo e a ansiedade em determinadas situações. Não há quem não se irrite diante de determinados estímulos.

 Todos temos fragilidades. Só não as enxerga quem é incapaz de viajar para dentro de si mesmo. Uns derramam lágrimas úmidas; outros, secas. Uns exteriorizam seus sentimentos; outros, numa atitude inversa, os represam. Alguns, ainda, superam com facilidade determinados estímulos estressantes, parecendo inabaláveis, mas tropeçam em outros aparentemente banais.

 Diante da sinuosidade da vida, como podemos avaliar a sabedoria e a inteligência de alguém: quando o sucesso lhe bate à porta ou quando enfrenta o caos?

 É fácil expressar serenidade quando nossas vidas transcorrem num jardim, difícil é quando nos defrontamos com as dores da vida. Os estágios finais da vida de Cristo foram pautados por dores e aflições. Teria ele conservado seu brilho intelectual e emocional nas suas causticantes intempéries? O mestre brilhou na adversidade: uma síntese das funções da sua inteligência.

No primeiro livro estudamos a inteligência insuperável de Cristo. Ele não frequentou escola, era um simples carpinteiro, mas para nossa surpresa expressou as funções mais ricas da inteligência: era um especialista na arte de pensar, na arte de ouvir, na arte de expor e não impor as ideias, na arte de pensar antes de reagir. Era um maestro da sensibilidade e um agradável contador de histórias.

 Sabia despertar a sede do saber das pessoas, vaciná-las contra a competição predatória e contra o individualismo, estimulá-las a serem pensadoras e a desenvolver a arte da tolerância e da cooperação social. Além disso, era alegre, tranquilo, brando, lúcido, coerente, estável, seguro, sociável e, acima de tudo, um poeta do amor e um excelente investidor em sabedoria nos invernos da vida.

 Cristo foi visto ao longo dos séculos como um sofredor que morreu na cruz.

Tal conceito é pobre e superficial. Temos de analisá-lo na sua grandeza. Apenas no parágrafo anterior listei vinte características notáveis da sua inteligência. Quem na história expressou as  características do mestre de Nazaré? Raramente alguém reúne meia dúzia dessas características em sua própria personalidade. Elas são universais, por isso foram procuradas de forma incansável pelos intelectuais e pensadores de todas as culturas e sociedades.

 Apesar de Cristo ter possuído uma complexa e rica personalidade, dificilmente alguém fala confortavelmente dele em público, tal como nas salas de aula de uma universidade ou numa conferência de recursos humanos. Sempre que nele se fala há o receio de que se esteja vinculando-o a uma religião. Entretanto, é necessário discorrer sobre ele de maneira aberta, desprendida e inteligente.

Aquele que teve a personalidade mais espetacular de todos os tempos tem de ser investigado à altura que merece. Porém, infelizmente, até nas escolas de filosofia cristã, sua vida e sua inteligência são pouco investigadas, quando muito são ensinadas nas aulas de ensino religioso. Há pouco tempo, minha filha mais velha mostrou-me um livro de história geral.

Por mais estranho que pareça, este livro resumiu em apenas uma frase a vida daquele que dividiu a história da humanidade.

 Como isto é possível?

Nele, apenas relata-se que Jesus havia nascido em Belém na época do imperador romano Augusto e morrido na época de Tibério. Nem os livros de história o honram.

A superficialidade com que a história tratou Jesus Cristo, bem como outros homens que brilharam na sua inteligência, é um dos motivos que conduzem os jovens de hoje a não crescer, em sua maioria, no rol dos que pensam.

 Os educadores não têm conseguido extrair o brilho da sabedoria de Cristo. Não conseguem inseri-lo nas aulas de história, de filosofia, de psicologia. Eles são tímidos e contraídos, não conseguem dizer aos alunos que irão discorrer sobre Jesus sem uma bandeira religiosa, mas ressaltando a sua humanidade e sua complexa personalidade.

Eu realmente creio que, mesmo numa escola que despreza qualquer valor espiritual, como aconteceu na Rússia, o ensino sistemático da história de Cristo poderia revolucionar a maneira de pensar dos seus alunos.

 Até mesmo nas escolas de filosofia budista, hinduísta, islamita, judia, se fossem ensinadas as características fundamentais da inteligência do mestre de Nazaré, tanto aos alunos do ensino fundamental como aos do ensino médio e universitário, os estudantes teriam mais condições de se tornarem pensadores, poetas da vida, homens que irrigariam a sociedade com solidariedade e sabedoria.

 Uma crise na formação de pensadores no terceiro milênio Uma importante pesquisa que realizei com mais de mil educadores de centenas de escolas apontou que 97% deles consideram que as características da inteligência, que foram vividas e ensinadas exaustivamente pelo mestre de Nazaré, são fundamentais para a formação da personalidade humana. Entretanto, para o nosso espanto, mais de 73% dos educadores relataram que a educação clássica não tem conseguido desenvolver tais funções.

Isto indica que ela, apesar de conduzida por professores dedicados, que são verdadeiros heróis anônimos, atravessa uma crise dramática.

 A educação pouco tem contribuído para o processo de formação da personalidade e para com a arte de pensar. A escola e os pais estão perdidos e confusos quanto ao futuro dos jovens.

 

 

 


Augusto Cury

Dr. Augusto Cury é médico psiquiatra, pesquisador e escritor. é autor da Teoria da Inteligência Multifocal, que analisa o processo de construção dos pensamentos. Criador da AGE ‒ a primeira Academia de Gestão da Emoção online ‒, que já transformou as vidas de mais de 25 mil alunos através dos cursos e treinamentos com as ferramentas de Gestão da Emoção desenvolvidas pelo Dr. Augusto Cury, em seus mais de 30 anos de pesquisa e atendimentos psiquiátricos.

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